Antibiótico cura a gripe mais rápido?

Febre, dor de cabeça, congestão, nariz entupido, dores pelo corpo, cansaço, espirros e tosse seca ou com secreção são os sintomas mais comuns nesta época do ano. Crianças ou adultos, quase ninguém escapa dos resfriados ou da gripe , não é mesmo ?

Assim que o mal-estar começa, a maioria das mães busca um medicamento para aliviar os sintomas de desconforto. E muitas correm atrás das últimas receitas em busca de um xarope anteriormente prescrito pelo pediatra, que já conhecem e que, de preferência, deu certo e funcionou bem. Principalmente em tempos de coronavírus , aonde a grande maioria tem medo de procurar atendimento médico .

Mas e quando tudo isso demora para melhorar ?

A tosse noturna atrapalha o sono das crianças e e de quebra , dos pais . Fica todo mundo mal humorado por tantas noites maldormidas e ainda temos que aguentar os familiares ( tias , avós e até vizinhos ) dizendo que a gripe está “mal curada” ou que há “algo” a mais e que deve ser investigado.

Pais ficam aflitos com a tosse das crianças. A secreção nasal pode ficar amarela ou até mesmo mais esverdeada , malcheirosa … será sinal de sinusite ? Cheirinho na garganta … será sinal de amigdalite ?

Por tudo isso, muitas pessoas querem tomar um antibiótico para “curar mais rápido” e encurtar o tempo de tosse e congestão.

Antibiótico para sarar mais rápido da gripe ?

Vamos entender : a gripe é causada por vírus. Os antibióticos são específicos para bactérias. As gripes não são causadas por bactérias. Por isso, o antibiótico não funciona para a gripe.

Mesmo quando a secreção nasal fica amarelada ? Sim! Resfriados são provocados por vírus, que não respondem aos antibióticos, e antibióticos podem causar efeitos colaterais, especialmente diarreia , dor abdominal e principalmente a infecção de repetição .

Quem toma muito antibiótico não fica com o dente estragado , mas com muito mais infecção !

Para descobrir se os antibióticos funcionam para o resfriado comum, procuramos por estudos científicos que compararam dois grupos de pessoas: um grupo que recebeu um antibiótico e outro que recebeu uma medicação que parecia semelhante mas não continha nenhum antibiótico (placebo).

Os resultados sugerem que os antibióticos NÃO funcionam nem para o resfriado comum nem para a rinite aguda purulenta, e que muitas pessoas têm efeitos colaterais devido ao uso dos antibióticos.

Mas sinusite e pneumonia não podem vir de uma gripe malcuidada?

A grande questão é que a gripe pode “ abrir as portas” para uma infecção bacteriana secundária, como uma sinusite, por exemplo. Neste caso, a congestão é tanta que a secreção se acumula nos seios da face e se contamina secundariamente com bactérias. Aí, então, os antibióticos podem ser prescritos. Mas quem deve avaliar se há mesmo necessidade é o médico.

Devemos lembrar que a resistência aos antibióticos é um problema muito sério e muito grave nos dias de hoje. O uso de antibióticos deve estar restrito aos casos que realmente necessitam, de acordo com os protocolos clínicos e universais de atendimento.

Para cada situação há indicação de um tipo diferente de antibiótico. Por isso é que só o médico pode indicar e as receitas são especiais e controladas.

Gripe não se trata com antibiótico. O médico que evita utilizá-los não está sendo ” chato” . Observar a evolução da criança e evitar ao máximo o uso de medicação desnecessária é uma boa prática médica . Isso é zelo e cuidado com o pequeno paciente .

O que eu faço então ?

Para a gripe, o melhor é tentar preveni-la. A lavagem frequente das mãos, deixar os ambientes ventilados , a limpeza diária do nariz com soluções fisiológicas (duas vezes ao dia, pelo menos), a umidificação do ambiente e, claro, o trio mais importante: comer saudável, atividade física e dormir bem, são essenciais para se tentar evitar uma gripe.

A vacina é excelente e das mais eficazes e seguras formas de prevenção.

Previna-se contra a gripe. Esta é a melhor conduta. O antibiótico não é a solução. Seu uso indiscriminado é que pode, sim, ser um grande problema.

Dá uma injeção que sara mais rápido , por favor !

Tem muita gente que me pergunta : “será que injetável não é melhor doutora ? Não sara mais rápido ?”

Será ?

Quem nunca ouviu falar da boa e clássica Benzetacil ? E só de mencionar o nome dela , todo mundo já solta uma “ai ” , não é mesmo ? Infelizmente, a injeção de Benzetacil dói e geralmente a área onde foi aplicada fica dolorida por algumas horas ou até mesmo por mais de 24 horas e há que diga que dói uma vida inteira…

É um antibiótico da família da penicilina, bastante usado no combate a algumas doenças, como infecções de garganta , respiratórias e de pele, sífilis e tratamento de longo prazo para prevenção da febre reumática.

A Benzetacil começa a fazer efeito de 15 a 30 minutos após a injeção e a sua ação se prolonga por um período que vai de 1 a 4 semanas. Trata-se de um antibiótico seguro para ser usado em bebês, crianças e adultos.

Mas ela resolve ? Sim! E a sua principal vantagem está na única dose . Não há outra medicação ( antibiótico) que se apresenta como dose única .

E funciona mais rápido do que por via oral ?

Não . No caso da Benzetacil , o efeito é semelhante ao do antibiótico administrado por via oral . A criança provavelmente apresentará prostração e febre nos 3 primeiros dias de tratamento .

Mas por que na minha época todo mundo tomava injeção ?

Na nossa infância , as medicações não tinham sabores – o gosto era horrível – e por isso muitos pais tinham dificuldade em administrar a medicação por via oral . A criança chorava , cuspia , vomitava … e aí o efeito do remédio era menor e muitos de nós usou o quê? Benzetacil!

Mas agora os remédios são gostosos : xarope , gotas , supositório e até gominha! E por isso , cada vez menos usamos o outro método , o injetável .

E tem outro antibiótico além da Benzetacil?

Sim! Mas com um espectro de ação tão amplo que deve ser guardado para casos com maior gravidade .

Mas eu tenho medo da reação com a Benzetacil…

Os efeitos colaterais da Benzetacil considerados comuns ocorrem em até 10% das pessoas que tomam a injeção. Essas reações incluem dor de cabeça, diarreia, náusea, vômitos e aparecimento de “sapinho” na boca e genitais.

Já os efeitos colaterais pouco comuns ocorrem em menos de 1% dos casos. Dentre eles estão: coceira pelo corpo, erupções na pele, urticária, inchaço por retenção de líquidos, reações anafiláticas, edema de laringe e pressão baixa.

Os casos de reação mais graves são raros , ou seja, menos de 1 caso em cada 1.000 pessoas que tomam o antibiótico.

Como qualquer medicação , existe o risco de alergias e por isso foi padronizado que – qualquer antibiótico injetável ( não só a Benzetacil ) só deve ser administrado no ambiente hospitalar .

Fica a dica .

Antibiótico estraga os dentes ?

É verdade que tomar muito antibiótico na infância enfraquece os dentes? Apenas em alguns casos. Existe um tipo de antibiótico, a tetraciclina, que adere à dentina, a parte dura do dente, provocando manchas e enfraquecimento. Mas isso só acontece se o medicamento for tomado em grande quantidade e enquanto o dente está se constituindo.

Hoje, praticamente todos os pediatras já têm consciência do que a tetraciclina pode fazer e procuram receitar para as crianças outros tipos de antibióticos, que têm o mesmo efeito.

Mas o antibiótico não deixa o dente mais fraco ?

Esta é uma dúvida muito frequente nos consultórios e a resposta simples para essa pergunta é não. Os antibióticos não estão entre os fatores causadores de cárie.

E porque o dente do meu filho está escuro ?

A cárie de mamadeira é o nome dado a um problema que atinge bebês em fase de aleitamento. Ela acomete até mesmo os dentinhos de leite e está relacionada à ingestão de alimentos com alto teor de açúcar, especialmente durante a noite.

Sabe aquele mucilon , achocolatado ou farinha que você acrescenta para deixar o leite mais gostosinho ? Pois é, ele é o maior vilão do dentinho do bebê .

Enquanto a cárie dos adultos surge pela falta de higienização adequada da cavidade oral, a cárie infantil é causada pela ingestão de líquidos açucarados, seja de forma natural, como no caso de sucos de fruta ou do leite, ou artificialmente.

Mesmo que você escove o dentinho durante o dia , se a criança tomar bebida açucarada ( leite , chá ou sucos ) a noite , os açúcares entram em contato com os dentes e as bactérias entram em ação. Elas produzem ácidos e outras substâncias que corroem gradativamente o esmalte dos dentes, danificando sua superfície e abrindo caminho para áreas mais internas.

Durante a noite, os riscos se intensificam devido à queda na produção de saliva, que contém substâncias responsáveis pela oxigenação bucal e pela neutralização de açúcares e agentes nocivos.

Nem vale a pena tratar porque os dentes são de leite …

Acreditar que a cárie em bebês é inofensiva é um erro muito comum. Para a maioria das pessoas, os danos causados aos dentes de leite não apresentam grandes riscos, já que eles serão posteriormente trocados pela dentição fixa da criança. Na prática, no entanto, as coisas são muito diferentes.

Os dentes de leite podem até ser temporários, mas sua deterioração pode trazer prejuízos que duram a vida toda. Além de serem necessários para a criança, sendo usados em atividades como a fala e a mastigação, os dentes de leite servem como base para a dentição definitiva.

O bebê pode sofrer com dentes tortos ou danificados na fase adulta. E o problema vai muito além da estética, podendo causar dores, enxaquecas, problemas mastigatórios e afetar até mesmo a respiração.

Fica a dica .

Nem adianta usar amoxicilina !

Quando escolhemos um antibiótico, optamos por aquele que é eficaz contra a maioria das bactérias presentes. Nem sempre o antibiótico mata 100% das bactérias. O que acontece é que se reduzirmos o número de bactérias para 5% ou 10%, a infecção desaparece porque nosso sistema imune é capaz de controlar o que sobrou.

Porém, muitas vezes o nosso organismo não consegue se livrar completamente dessas bactérias, permitindo que as mesmas se reproduzam e causem uma nova infecção, agora composta apenas por bactérias resistentes ao antibiótico escolhido inicialmente.

Este é um exemplo simplificado do que ocorre na realidade. Geralmente são necessários alguns cursos repetidos do mesmo antibiótico, ao longo de meses ou anos, para que surjam bactérias resistentes. Este processo é nada mais do que a seleção natural, onde os mais fortes sobrevivem e passam seus genes para seus descendentes.

Alguns fatos, entretanto, favorecem o surgimento mais rápido de cepas resistentes. O principal é a interrupção precoce do tratamento : algumas bactérias mais fracas morrem com 24 horas, outras precisam de 7 dias. Se o tratamento é interrompido com 5 dias, por exemplo, as bactérias mais resistentes, que precisavam de mais tempo de antibiótico, continuarão vivas e poderão se multiplicar, levando, agora, a uma infecção bem mais resistente.

Outro fator importante é o uso indiscriminado de antibióticos. Muitas das infecções que temos são causadas por bactérias que vivem naturalmente no nosso corpo, controladas pelo nosso sistema imune, apenas à espera de uma queda nas defesas para atacarem. Se o paciente usa muito antibiótico sem necessidade, como, por exemplo,quando a mãe usa para “secar o catarro mais rápido”, ela estará previamente selecionando as bactérias mais resistentes, e, futuramente, quando houver uma real infecção bacteriana, esta será causada já por bactérias resistentes.

E quando a amoxicilina não funciona?

Amplamente utilizada na Pediatria , a amoxicilina é eficaz na maioria das infecções – de garganta, ouvido , sinusite a pneumonia – e também o antibiótico com maior número de bactérias resistentes .

Crianças com infecções recorrentes , fazem uso de amoxicilina e a partir de um certo tempo , nota-se uma redução da sua eficácia . Quando isso ocorre , há a necessidade da troca de remédio , pois não há cura .

E isso pode acontecer com o outro antibiótico? Sim! Se o uso for indiscriminado , com certeza a criança poderá ser colonizada por microorganismos tão poderosos , que somente o uso de medicação na veia ( injetável ) será eficaz . Essa é a temida infecção por bactérias multirresistentes – tão fortes que não há medicação que interrompa a doença .

Prevenção , prevenção , prevenção

Por isso a prevenção de novas infecções é peça fundamental do tratamento . Não basta usar remédio , devemos saber quando e como usá-lo e investigar o por quê isso está acontecendo .

Amígdala grande ou adenóide , desvio de septo e refluxo gastroesofágico são doenças que podem propiciar muita infecção . Após o diagnóstico , o pediatra avalia qual será a forma melhor de tratamento e de prevenção , para que o seu filho não volte a usar mais nenhum antibiótico.

Fica o recado : pense muito antes de usar qualquer remédio por conta própria , sem a orientação de um médico . A solução mais imediata para o seu problema nem sempre é a mais adequada .

Reflita . À saúde do seu filho em primeiro lugar .